segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

CARTA ABERTA ÀS MINHAS OVELHAS - Texto (Pr. Weslei Orlandi)

Queridas ovelhas,

Ando inquieto. Ser pastor, ao contrário do que muitos pensam, não é tarefa fácil. “Pastor não trabalha”, gracejam alguns. “Pastor ganha bem”, alfinetam outros. Essas e tantas outras “brincadeiras” de péssimo gosto em alguns momentos me fazem pensar se vale a pena essa jornada. Penso ter razões para isso:
Não escolhi ser pastor; fui escolhido. Não tive, como muitos de vocês, a opção de escolher entre uma profissão e outra. Foi involuntária a chama que, de uma hora para outra, começou arder em meu coração. Fui abduzido do mundo dos normais e, de repente, lá estava eu, nos púlpitos, nas casas, pregando, aconselhando, visitando, intercedendo... E agora isso! “Senhor, tu me enganaste, e eu fui enganado; foste mais forte do que eu e prevaleceste. Sou ridicularizado o dia inteiro; todos zombam de mim”, Jeremias 20.7, NVI.
Não tenho superpoderes; “sou homem como qualquer outro homem” (Atos 10.26). Ainda que eu queira, não consigo. Minha humanidade me consome, me cerca, me humilha, me vence. Agonizo entre os anseios de ajudar a todos e as incessantes lembranças de que a vida segue seus caminhos invariáveis e não há muito a fazer.
Não sou carismático. A virtuose de tantos não passou nem perto de mim. Não domino a oratória, não encanto quando canto, não sei a diferença entre o Dó e o Lá, não sou midiático, emblemático, não contagio multidões, não sei chorar enquanto falo, sorrir enquanto exorto, representar enquanto descrevo. Sou normal; só isso.
Não pastoreio multidões, não batizo milhares; apenas um pequeno rebanho me foi confiado. Aos domingos não encho o templo, não arrecado milhões, não recebo fortunas. Sobrevivo com pouco, me alegro com pequenos ajuntamentos. Talvez me falte a gana e o domínio das técnicas de superação. Devo ler muito o pouco sobre os tais “7 pulinhos para uma vida de sucesso”.
Não tenho amigos; e os que tenho, não são tão próximos assim. De noite, faço nadar em lágrimas minha cama (não tenho onde chorar!). De manhã, sorrio, aceno. Está tudo bem! Sou pastor e pastor não tem problemas, não se sente só, não fica triste, não desabafa, não fraqueja, não peca, não perde. Pastor que é pastor faz “oração forte”, tem acesso livre ao trono celestial, caminha com anjos, conversa com Deus, tem visões. Quem vive assim, pra que amigos?
Não conto com muitos. Na verdade, alguns de você parecem não se importar com meus clamores, com a Igreja, com as necessidades prementes, com os finais de semana, com os cultos da semana. Talvez a culpa seja mesmo minha. Preciso ser mais criativo, mais ousado, dinâmico, espetacular, fervoroso.
Tenho chorado e arquejado sob o peso de tantas vergonhas. Nas ruas percebo o desprezo. Já nem se dão mais ao trabalho de cobrir o rosto enquanto gracejam. “O que fazer?”, indago a mim mesmo. Não consigo parar. Não posso, não quero! Covardia? Falta de opção? Não, não pode ser isso; e não é!
Ser pastor, a mais humilhante das tarefas humanas, também tem o seu lado bom. Deve ter; não é possível! Ao contrário de muitos [e do que muitos pensam], eu não negocio a palavra de Cristo visando lucro; antes, em Cristo falo diante de Deus, com sinceridade, como homem enviado por Deus, 2 Coríntios 2.17, NVI – acréscimo meu. Sei que amando mais, corro o risco de ser menos amado. Tudo bem. “De boa vontade, por amor a [vocês], gastarei tudo o que tenho e também me desgastarei pessoalmente, 2 Coríntios 12.15, NVI.
Estou sendo insensato. Fui obrigado a isso. Não sou inferior aos “superpastores”, embora eu nada seja. O legado de um pastor não depende das grandes obras, mas da sua perseverança, do seu amor, do seu empenho, da sua consciência. Seja como for, não pretendo recuar. Agora é tarde! Embora todos busquem os seus interesses e não os de Cristo, eu já fiz minha escolha: “o que para mim era lucro, passei a considerar como perda por causa de Cristo”, Filipenses 3.7, NVI. Ainda não cheguei lá, mas vou chegar. Também fui alcançado por Cristo, prossigo para o alvo. Haverá um prêmio. Haverá um consolo. Se já alcancei maturidade, então, é assim que devo ver as coisas. E vejo... Ah! É Lindo!
Meu sucesso, minha conquista, meus motivos, minha garra não foram dizimados. Alguns de vocês ainda fazem valer a pena. Eu sei que um dia olharei para os lados e os verei sorrindo enquanto caminham pelas imensidões do céu infinito. Nesse dia, quando isso acontecer, olharei para o meu Senhor e ele, num olhar – bastará um – me fará entender qual era a grandeza da minha missão.
Até lá, queridas ovelhas, não permitam que ninguém os julgue pelo pastor que têm. Fiquemos com as palavras do querido e valente Lutero: “Não somos o que devemos ser, mas pela graça de Deus, sabemos que já não somos mais o que éramos”. Isso basta!

Amo vocês!

Eu, vosso pastor e servo de Cristo.

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