sábado, 3 de outubro de 2015

UM ENCONTRO NO CAMINHO.

por Sandro VS

Jesus, ao mesmo tempo em que está seguindo seu caminho, está manifestando este caminho àqueles que vivem sem direção. Neste ponto da jornada Ele encontra alguns que, de tão desorientados, decidiram estacionar em uma “zona de conforto”, oferecida a quem está decidindo parar de caminhar. 

Jesus está em direção a Jerusalém para uma das festas judaicas que o texto não nos identifica e, ao que tudo indica, está sozinho, pois nenhum dos discípulos já caminhantes é mencionado aqui. Entra pelo átrio do templo, mais precisamente pela porta das ovelhas, onde encontra um tanque chamado casa de misericórdia (Betesda). 

Ali jazia uma pequena multidão de inválidos e, entre estes, houve um homem que foi alvo de um inusitado encontro com o caminho. A este foi proposto uma retomada a uma nova jornada, pois, como já disse, ele foi seduzido a estacionar em um cômodo, mas ilusório descanso. 

A PARALISIA, A JORNADA E O CAMINHO. 

Antes de chegarmos ao dialogo entre Jesus e o paralitico devemos entender o que o fez permanecer naquele lugar. 

O misticismo sempre fez parte do imaginário humano, isto é, o mistério e o incompreensível sempre seduziram a humanidade, assim, como não podia deixar de ser, este tipo de crença supersticiosa estava espalhada por todo mundo antigo da mesma maneira em que existe hoje em todos os lugares. Portanto, a ideia de um anjo que de tempos em tempos agitava a água para que o primeiro que se banhasse nela fosse beneficiado de alguma forma não era novidade entre as pessoas. 

Mas, em se tratando de Deus e diante deste texto, deveríamos sempre nos perguntar: Isso faz sentido? Um Deus brincando com a dor alheia? Utilizando-se de anjos e do seu poder para se divertir? 

Quero insistir no argumento e propor a seguinte situação: Pense em alguém com muitos recursos e que pode alimentar todos os mendigos do seu bairro, mas decide colocar uma única cesta básica no alto dos degraus de uma longa escadaria. Então ele convoca todos os mendigos ao pé da escadaria e, lá de cima, ao lado da cesta básica, diz: “quem conseguir subir primeiro esta escadaria e tocar na cesta ficará com ela”. Sádico seria um dos adjetivos que caberiam a alguém assim e, sem sombra de dúvidas, este adjetivo não se aplica a Deus. 

Dito isto, a seguinte pergunta que fazemos é: então por que esta narrativa está no texto bíblico? 

Provavelmente seja muito mais difícil explicar como este relato foi omitido de todos os melhores manuscritos do texto bíblico do que explicar a maneira pela qual foi inserido no texto. 

A resposta está na intenção com a qual este relato foi escrito, ou seja, era uma nota explicativa que ficava na marginal do texto pretendendo elucidar a causa de tantos doentes em volta do tanque, mas, depois de tantas cópias, alguém o incluiu no texto, mas com a mesma intenção, isto é, esclarecer a causa de tantos enfermos reunidos ali. A prova disto é que metade do versículo três e todo o versículo quatro sempre estarão entre colchetes em nossas melhores traduções, assim como também no rodapé da página em que se encontrar o relato em questão sempre haverá o seguinte aviso: O trecho entre colchetes não aparece na maioria dos mss (manuscritos). 

Talvez isso te surpreenda, mas nunca houve anjo que agitasse a água e também nunca houve qualquer poder medicinal naquela água a não ser na cabeça dos doentes que eram vítimas do seu próprio misticismo e da crendice popular, pois João nunca escreveu sobre algum poder sobrenatural no tanque e não citou, em nenhum momento, um aventureiro que tenha se curado, outro fato é que João não narra Jesus fazendo qualquer menção às águas quando conversa com o paralítico. 

Mas o que João deixa claro é que Jesus propõe ao homem exatamente o oposto, ou seja, o convida a seguir um novo caminho tão real quanto quem o curaria da sua paralisia. A pergunta feita por Jesus, “queres ser curado?”, por mais que pareça que tenha sido feita ao homem de forma aleatória, se considerarmos que a regra do tanque era “cada um por si”, não foi, pois parece justo Jesus procurar exatamente alguém que não conseguia andar. A resposta do paralítico não deixa duvida que a esperança que se acendeu em seu coração foi que Jesus seria este bom homem que o levaria até o tanque para um mergulho milagroso, mas o que ele nunca esperou aconteceu, o bom homem tinha muito mais que seus ombros para ceder a ele, suas palavras são tão diretas quanto à pergunta inicial: “levanta, toma teu leito e anda”. 

Mais uma vez o caminho não só propõe uma jornada, mas dá condições para que ela se desenvolva. Este homem, que há 38 anos sofria da paralisia física, recebe uma cura completa, ou seja, além de literalmente poder voltar a andar pôde também retomar uma caminhada que havia interrompido quando cedeu a crença mística da sua alma ao ficar esperando um suposto ato de Deus, por intermédio de anjo imaginário em águas misteriosamente milagrosas. 

Um encontro sincero com o caminho tem este poder, curar nossas deficiências e nos livrar das nossas paralisias intelectuais em nome de superstições sem base e sem entendimento, pois, quem entra no caminho e aceita a jornada, na mesma medida em que é convocado a não aleijar sua fé crendo em contos e fábulas que prometem esquisitices é chamado a crer na sobrenatural simplicidade da jornada, isto é, talvez nem sempre aconteçam milagres, mas nunca deixará de haver caminho e encontros nele. 

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